23.10.09

Caminhar... Caminhar













Toda sua infância fora franzida pelo ar frio que doía o nariz com gélido ardor; via a si mesma como de longe, pequena [...] Tendo experimentado a doçura da fascinação e da obediência ardente [...] e fraca ansiava agora entregar-se a força de outro destino. Lispector

Lejos / lejos

20.10.09

Excessos






Deixar-se morder é a condição lenta de dissolvência
. Simples assim. O resto é silêncio.

17.10.09

"Olaria Portuguesa: Do Fazer ao Usar"


Talvez o encanto da olaria seja derivado da magia da sua criação. O sabermos ter sido, numa fase de gestação, matéria dúctil que facilmente obedece ao tacto das mãos, que se pode modelar e voltar a modelar, e que, pela acção do fogo se transforma em matéria consistente, imutável, mas, simultaneamente, frágil e quebradiça.

Talvez o encanto da olaria seja sensorial. Uma bela peça de barro, como uma bela peça de escultura, convida-nos a senti-la, a afagá-la, a passar sobre ela as mãos, sentindo o seu peso, a sua ondulação, a rugosidade ou a maciez da sua superfície.

Talvez o encanto da olaria seja derivado da beleza das formas que possui, originadas nos gestos de muitos homens, nos usos de outros tantos, que foram apurando as formas, que foram afeiçoando o imperfeito até transformar as peças em autênticas obras-primas.

(pelas palavras trocadas com aquele que cuida dos versos e reversos da minha alma)

Rastrelli Cello Quartett Piazzola

Diagnóstico

"Não sou reta
Gosto da madrugada
Me encanto
com peculiaridades,
dispenso formalidades,
admiro a sensatez
_ e quem a deixa às vezes,
com honestidade -
Prefiro sempre viajar
Nem que seja
com um vinho bordeaux
Não vivo na superfície
Recuso o que não me toca

Mas meu corpo deseja mais
do que minha cabeça pode
E minha cabeça pensa mais
do que o meu corpo suporta

Não posso me apaixonar
Porque sou viciada"

13.10.09

Tempo

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.


Caio Fernando Abreu in "O Dia que Júpiter encontrou Saturno"

Capítulo XX - Intimidade



nos lugares que percorro, haverá sempre esse sorriso fácil e que vc conhece, uma lágrima doce, rugas, um olhar de sono e outro de acordar, um suspiro, um delírio e uma voz que haverá sempre de contar aos meus pensamentos a nossa história.

in Bernardes

12.10.09

Mémórias

[...] meu coração batia bongô, um ritmo desconhecido, embriagante, escandaloso. O tecido leve do vestido cedeu, transformando-se em espuma ao se encharcar com aquela água morna que parecia lamber a minha pele. [...] Que gosto bom tem o desejo ! Molhada até os ossos, porém sem frio, cheguei próximo ao som, podia tocá-lo com as pontas dos dedos. Havia algumas folhas entre a música e eu. Iniciei a dança tantas vezes ensaiada em frente ao fogão, cantei em voz alta músicas desconhecidas, e senti um abismo fundo se abrir. Senti o sangue correr vermelho nas veias. Chorei gotas de canela, amora, camélias brancas. Eu estava entregue. E não foi preciso sequer levantar as folhas para ver o segredo. Ele havia grudado em meu corpo. E havia de sair apenas quando as chamas fossem altas.

*extraído das páginas amarelas do "papel manteiga para embrulhar segredos"

11.10.09

Maestria

Coisa mais antiga. Amanheci Bossa Nova.
Não é nostalgia. É felicidade serena.
Um sentimento ébrio, boêmio e bom. Que se acaba às oito, eu sei.
Aí vivo uma nota só. Que nem samba é...
Veja bem. Não é que eu não goste desta afinação monocrática. Um toque de sol tem o seu prazer.
Mas é só isto: um sol eternizado.
Eu gosto mesmo é da harmonia do crepúsculo. Nada ruidosa. Mas múltipla. E, principalmente, momentânea. Essa instabilidade me fascina. É o encanto do imprevisível. Tão perfeito no instante, quanto efêmero.
O giro que se completa.
Já são seis. Regresso para o centro. Uma plenitude solitária. Uma sensação de volta que me deixa livre. É o tom da minha vida.
Sorrio, feliz.

9.10.09

Esses pés


Esses dias girando/ girando para as coisas do mundo, tenho encontrado tanta gente por essas terras, o Homem do Cinema Novo, Bugrinha de lençois, a melemolência do Simonal, tudo no encantamento da Palavra Encantada e a chuva não deixou eu assistir a festa da menina morta e eu fiquei sentida, de sentir.


(Pés da pequena Sophia)

5.10.09

Um estar



Retomar


os

Passos

Sentir chegar
Silêncio de estar

Pisar o chão, permanecer... Em casa, sempre