12.12.12

Água de remanso



[Thiago de Melo ]


Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente

em paz comigo: ternura.
Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.
Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer
Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.
É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.
Pode também ser tristeza:
tranqüilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.
Sou: estou e canto.

11.12.12

O amor, me reconheceria a quilômetros de distância sem me prender, ele saberia do meu desejo de voar.



Um desejo , não de ser ave,

Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro do meu ser 

Fernando Pessoa

9.12.12

Oblivion


NA NOITE VAZIA

Assombro poético


No delírio poético  escravizei-me
aninhada à poesia
 já havias me enganado completamente
Sua destreza 
amparou-me as lágrimas
coalhadas de sangue
negando  tormentos
enquanto os meus sentidos
 convulsionavam
epilépticos
gemi
no poroso e frio chão 
do assoalho


Dos sinais



"Entretanto sou incapaz de dizer o que é que eu quero, apesar de ansiar pelo que espero de alguma forma secreta. Pois muitas vezes, e com freqüência cada vez maior, à medida que o tempo passa, dou comigo de repente a interromper minha andança, como se eu fosse paralisada por um olhar estranho e novo sobre a superfície da terra que conheço tão bem. Um olhar que insinua alguma coisa; mas que se vai antes de eu perceber seu sentido. É como se um riso nunca visto furtivamente se estendesse num rosto bem conhecido; por um lado dá medo, no entanto por outro ele nos faz um sinal." 

7.12.12



Quem tem consciência para ter coragem

Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste


Entre os dentes segura a primavera


Se Te Queres Matar



    [...]
    De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas 
    A que chamamos o mundo? 
    A cinematografia das horas representadas 
    Por atores de convenções e poses determinadas, 
    O circo policromo do nosso dinamismo sem fim? 
    De que te serve o teu mundo interior que desconheces? 
    Talvez, matando-te, o conheças finalmente... 
    Talvez, acabando, comeces... [...]

    Ah,  pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
    Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
    És importante para ti, porque é a ti que te sentes. 
    És tudo para ti, porque para ti és o universo,
    E o próprio universo e os outros
    Satélites da tua subjetividade objetiva.
    És importante para ti porque só tu és importante para ti.  
    E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?  [...]

    Dispersa-te, sistema físico-químico 

    De células noturnamente conscientes 
    Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos, 
    Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, 
    Pela relva e a erva da proliferação dos seres, 
    Pela névoa atômica das coisas, 
    Pelas paredes turbilhonantes 
    Do vácuo dinâmico do mundo...

29.11.12

Aprendi a costurar a pele. a lâmina que me fez gritar a dor e expeli num jato violento o sangue das minhas retinas.  aprendi a remendar a carne aberta. o sofrimento aumenta a minha sensibilidade. já me acostumei a cicatriz. escuto os teus passos. sei que lhe perdi da retina. um vulto teu.um passo meu. teus olhos não esquecerei jamais! Não! não esqueça as minhas mãos que respiraram nas tuas. Estou salva do malogro e livre da decepção. Vou voar e não poderia deixar de lembrar-te. Voa pássaro-poeta. Nos encontraremos no céu.
♪ Sementes de mar
Grãos de navegar
Partir
Só de imaginar, eu vi
Água de aguardar
Onda a me levar
E eu quase fui feliz

Mas nos longes onde andei
Nada de achar
Mar que semeei, perdi
A flor do sertão caiu
Pedra de plantar
Rosa que não há
Não dá
Não dói, nem diz

27.11.12

Aquela relação
sofria
de dualidade
ELA morava na poesia
ELE habitava a realidade
morreram atropelados
por um bêbado
desencontro

18.4.12

A menina que escreve em geladeira

De tanto resolver 


cambalhotas


machucou o dedinho do pé


depois cansaram-lhe as sandálias


(o chão era mais alto agora 


porque melhor de alçar)


e o seu tempo ficou gravado


na porta da geladeira

(Ribeiro Pedreira)

12.2.12

Maria da canção


MARIA das MARIAS
Mariana
MARIA não
Ê MARIA
MARIA da canção (Ô iá)
Ainda MARIA musa
MARIA lusa
MARIA dor
Menina MARIA mora
no bico do beija-flor
morena MARIA mora
mora no endereço do amor
Maré cheia de Marias
é o mar de Salvador
MARIA que não tem roupa
MARIA louca
MARIA dé
MARIA de romaria
que mexe com a minha fé
MARIA que eu amaria
se não fosse outra mulher
que também se chamaria MARIA
é MARIA mas que não é
e tem  MARIA sonsa
mulher onça
mulher má
de fazer zombaria
de quase nunca se dá
MARIA ante MARIA
mas MARIA não há
se ouvesse eu chamaria MARIA
vem MARIA pra me amar

13.1.12

Aquele 13

Ruídos

ecoam

da minha

branca 

manhã

canto

observando

o

Anum

 Armada 

de

pregos

fui embora

 fácil abocanhar os lírios

18.11.11

Areia e Água



I

Era uma vez dois e três.
Era uma vez um corpo
E dois pólos: alto muro
E poço. Três estacas
de um todo que se fez
num vértice, diáfano,
noutro espessura de rês
couro, solo cimentado
nem água, nem ancoradouro.

II 

E certa longitude
Onde o sol se refaz.
E certa latitude, seta-ilha
Onde o meu peito pulsa
Seta e sangue
num percurso pasmado de agonia.

III

Aqui me vês dois pólos
tão distantes e no entanto
Três: eu e meus dois horizontes