XI
[...]
Que caminhadas. Que sangramento de passos.
Que cegueira pretendendo
Seguir teu próprio cansaço. Olha-me a mim.
Antes que eu morra de águas, aguada do que inventei.
Poemas malditos, gozosos e devotos. [Hilda Hilst]
12.11.13
Querido _ .
O tempo me ensinou a esquecer os ossos velhos.
Tudo parecia poético e cercado de delicada fúria. O elo se desfez na dança dos dias. Não havia mais sedução, nem ânsias. Eu de desgostosos beijos. Eu enfadada pela descrença.
Onde foram parar as lavas do desejo ou as borboletas dos meus olhos?
Tu partirias.
Eu já estava vazia de ti
L.
O tempo me ensinou a esquecer os ossos velhos.
Tudo parecia poético e cercado de delicada fúria. O elo se desfez na dança dos dias. Não havia mais sedução, nem ânsias. Eu de desgostosos beijos. Eu enfadada pela descrença.
Onde foram parar as lavas do desejo ou as borboletas dos meus olhos?
Tu partirias.
Eu já estava vazia de ti
L.
Canção - Murilo Mendes
Para o Oriente do amor
Meus sentidos aparelham.
Bandeiras azuis, vermelhas,
Cruzaram-se no horizonte.
De onde vem tal embriaguez,
Que aurora terei tomado?
Vem do fundo de mim mesmo,
Vem da minha alma correndo.
Minha amada na varanda
Arrulha, me faz sinais.
Voo com abril nas mãos,
Para continuar o ciclo
De antiga revolução:
Aboli as dissonâncias,
O sentimento renasce
Como no início do mundo.
(Livro: As metamorfoses - 1938)
Para o Oriente do amor
Meus sentidos aparelham.
Bandeiras azuis, vermelhas,
Cruzaram-se no horizonte.
De onde vem tal embriaguez,
Que aurora terei tomado?
Vem do fundo de mim mesmo,
Vem da minha alma correndo.
Minha amada na varanda
Arrulha, me faz sinais.
Voo com abril nas mãos,
Para continuar o ciclo
De antiga revolução:
Aboli as dissonâncias,
O sentimento renasce
Como no início do mundo.
(Livro: As metamorfoses - 1938)
não colher as mãos, alimentar os objectos.
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde
o ar até à ponta dessa sombra onde repousa
o mundo. tenho a certeza de que algo se
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez.
sei que falas com as coisas. que tens um pacto
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes
hereditários gestos. que nem que quisesses me
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que
inclino as mãos quando percorro as cidades e as
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo.
Rui Costa
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde
o ar até à ponta dessa sombra onde repousa
o mundo. tenho a certeza de que algo se
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez.
sei que falas com as coisas. que tens um pacto
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes
hereditários gestos. que nem que quisesses me
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que
inclino as mãos quando percorro as cidades e as
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo.
Rui Costa
No meio-dia te penso
Íntima te pretendo.
Incendiada de mim
Contigo morrendo
Te sei lustro marfim e sopro.
E te aspiro, te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.
E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retorno sob o sol.
H.H in Da morte. Odes mínimas
Íntima te pretendo.
Incendiada de mim
Contigo morrendo
Te sei lustro marfim e sopro.
E te aspiro, te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.
E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retorno sob o sol.
H.H in Da morte. Odes mínimas
6.11.13
Querido E.
Acordei com o frescor da manhã.
Os caminhos tem flores e sigo a infinita procura
Tenho recordações das nossas tardes de estação e perco-me nas lembranças.
Tem cuidado comigo,
essa alma peregrina.
Toca-me, apenas, enquanto respiras.
Conta-me do teu humano desejo.
Encaixa os teus sentidos nos meus inventos.
Com todo amor,
Sofia.
* um escrito dedicado ao espetáculo ESQUIZOFRENIA, que arrastou-me para águas profundas. — com Morgana Poiesis e Carona Teatro Itinerante.
Acordei com o frescor da manhã.
Os caminhos tem flores e sigo a infinita procura
Tenho recordações das nossas tardes de estação e perco-me nas lembranças.
Tem cuidado comigo,
essa alma peregrina.
Toca-me, apenas, enquanto respiras.
Conta-me do teu humano desejo.
Encaixa os teus sentidos nos meus inventos.
Com todo amor,
Sofia.
* um escrito dedicado ao espetáculo ESQUIZOFRENIA, que arrastou-me para águas profundas. — com Morgana Poiesis e Carona Teatro Itinerante.
Senhor…
Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar
hélène monette via Blogue poesia
Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar
hélène monette via Blogue poesia
22.10.13
Cartas
Missivas à espera de remetente
O amor é esse bicho doido que você plantou dentro de mim. Eu disse que não queria, que não podia, mas foi tanta insistência que acabei sucumbindo. Agora estou aqui com poemas por toda a casa, o som no volume máximo ouvindo Marisa Monte, com todas essas esquisitices de um ser apaixonado. Não, não me diga que tudo isso passa. Não passa. Olha o que eu escrevi:
Essa coisa que aconteceu entre a gente
Incontinente: acho que foi ist(m)o
Vou ver as ruas, quem sabe o ar poluído me recupere de tuas purezas, dessa leveza que imantas nos gestos e nas palavras. Por enquanto hoje é sábado, neste calendário corroído de pretéritos. Te beijo com esta ânsia de tempestades.
[Assis Freitas]
O amor é esse bicho doido que você plantou dentro de mim. Eu disse que não queria, que não podia, mas foi tanta insistência que acabei sucumbindo. Agora estou aqui com poemas por toda a casa, o som no volume máximo ouvindo Marisa Monte, com todas essas esquisitices de um ser apaixonado. Não, não me diga que tudo isso passa. Não passa. Olha o que eu escrevi:
Essa coisa que aconteceu entre a gente
Incontinente: acho que foi ist(m)o
Vou ver as ruas, quem sabe o ar poluído me recupere de tuas purezas, dessa leveza que imantas nos gestos e nas palavras. Por enquanto hoje é sábado, neste calendário corroído de pretéritos. Te beijo com esta ânsia de tempestades.
[Assis Freitas]
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