22.10.13

“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados...” 

- Gabriel García Marquez

Cartas

Missivas à espera de remetente



O amor é esse bicho doido que você plantou dentro de mim. Eu disse que não queria, que não podia, mas foi tanta insistência que acabei sucumbindo. Agora estou aqui com poemas por toda a casa, o som no volume máximo ouvindo Marisa Monte, com todas essas esquisitices de um ser apaixonado. Não, não me diga que tudo isso passa. Não passa. Olha o que eu escrevi:

Essa coisa que aconteceu entre a gente
Incontinente: acho que foi ist(m)o

Vou ver as ruas, quem sabe o ar poluído me recupere de tuas purezas, dessa leveza que imantas nos gestos e nas palavras. Por enquanto hoje é sábado, neste calendário corroído de pretéritos. Te beijo com esta ânsia de tempestades.



[Assis Freitas]

26.9.13

'E se me faço ampla'





 'carrega-me contigo, pássaro-poesia.
quando cruzares o amanhã, a luz, o impossível
porque de barro e palha tem sido esta viagem
que faço a sós comigo'
a minha intimidade é pequena

A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo.

ana merino
do sol, o sal
que saliva

cata o vento
das horas

na beira da voz
o nada
suspirado
da pele. fissuras

desabitam os espaços

Nossos poros

úmidos

de cristais vermelhos
VERDE PARAÍSO

estranha que fui
quando vizinha de longínquas luzes
acumulava palavras tão puras
para criar novos silêncios

[Alejandra Pizarnik - trad. Diogo V. Pinto]
http://player.vimeo.com/video/75075827

6.9.13

"Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive."

- Florbela Espanca

1.8.13

O rio é fresco em torno do corpo dele
Era ontem.
O primeiro poeta urinava seu amor
Seu sexo em luto cantava ruidosamente
As canções guturais
Das montanhas
O primeiro deus ereto sobre seu halo
Anunciava sua vinda sobre a terra esvaída
Era amanhã.

Joyce Mansour - De Dechirures (1955)
Receba minhas preces.
Engula meus pensamentos poluídos.
Purifique-me: que meus olhos se abram
Vejam o sorriso interior dos assassinos.
E uma vez pura
Judas crucifique-me.

[Joyce Mansour]