26.4.10

Filme de cabeceira

 
(porque a tua descrição é o meu sentir)

"Esse o meu filme mais dileto. O filme-revolução da cinematografia brasileira. O meu filme-paradigma íntimo.
Lavoura arcaica arrancou de mim a admiração por Luiz Fernando Carvalho. Desnudou-me a ânsia. A compulsão por Nassar.
No silêncio da tela, o silêncio agudo da terra. A literatura da terra. Corpo bruto vestido de chão. Cinema-entorpecimento.
Ao menos foi essa a cicatriz deixada pelo filme. Algo inacabado em mim encontrou nele o regaço, a acolhida; qual inconsciente que urde na trama dos sonhos, o gozo, a trama da vida. Tudo convergia ao encanto.
Nos próximos minutos a cor me acometeria. Magistralmente a fotografia do filme arderia nos olhos, estampando, por dentro, as brumas mais densas do ser. O enigma, a paisagem, a sucessão. Em cada fotograma, uma entidade viva, embebida da selva literária de Raduan Nassar. Um mesmo e longo mosaico de sinuosidades, cheiros... Estesia.
A experiência do belo ali transposta no horror, na sujeição, na sede do gesto que descerra a origem. A experiência de Lavoura Arcaica é literalmente carnal. Um filme de sinestesias. Com sabor e intensidade próprias. Um gosto de pele a arder no olhar.
Selton Mello, tornado animal de si mesmo, reverbera senões de seu tempo psíquico, de seu instinto, de sua verve de fogo. Na teia discursiva, a história é a história. Os séculos do homem, a busca, o que dorme na vicissitude. O meio e a imaginação. O devir, a licenciosidade. O tornar-se a ser. A não-concreta liberdade.
Lavoura Arcaica foi, a priori, um ensaio para os meus próprios abismos, sutil fronteira demarcada no horizonte do irreal. Um despertar para a Sétima Arte, um mergulho nas folhagens e artérias do mundo-sensação".

(BETA)

6 comentários:

Mai disse...

Uma crítica/resenha justíssima e sem tirar vírgula, direi que trata-se de um livro mais que necessário, obrigatório e um filme para se ver inúmeras vezes.
Tudo o que ressaltas em teu texto: O apelo visceral nos diálogos, a densidade dos personagens, a beleza da fotografia, a sensualidade a sedução intrínseca e o impacto junto ao espectador são impressionantes.
Em várias cenas me flagrei atônita, mas especialmente em um dos diálogos entre o André e a Ana, fiquei sem fôlego.

Beijos, querida

Sylvia Araujo disse...

Rê, não conheço a Beta, mas senti lá no fundo.
Lavoura Arcaica é um filme realmente belíssimo, mas descrevê-lo com tantos sentimentos vibrantes assim, é de arrepiar. Depois dessa vou rever a arte, pra sentir com poros de Beta tudinho de novo.

Linda escolha. Lindo pulsar.

Beijoca, flor!

BETO PALAIO disse...

Renata, seu comentário supera o filme, que é lindíssimo... Mas a palavra tem essa mágica... É a palavra que cria o argumento, o enredo, o take e o copião... E a palavra convida para a reprise. Lendo você quero ver novamente Lavoura Arcaica...

Bjs

Ribeiro Pedreira disse...

Múltiplas sensações. Pés que absorvem o desejo que brota da terra.
Onde o incesto se justifica!?
Obrigado por me apresentar a esse mundo sensitivo, flor.
Mais uma sessão juntos, nunca é demais.
Meus beijos!!!

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Renata,
Quando a literatura veste a tela. Quando a arte verte arte. Gosto das intersecções, moça da Bahia.

Abraço mineiro,
Pedro Ramúcio.

Pensamento e Fumaça disse...

Olá moça!!
Entrego-me de corpo e alma as suas entregas...!
Quanto ao filme...um dos meus favoritos também!!
De poesia ímpar, de beleza indizível!
O texto do Raduan Nassar ultrapassa a barreira da novela e esbarra numa prosa poética incrível!
Sua resenha/crítica é perfeita também...acho incrível como transforma sentimento em material de construção para suas idéias!
Um super beijo!
Mell