4.1.13

A carta




Podemos marcar um desencontro.

Eu mando a carta,
fico sem resposta,
você sai do jogo,
eu faço a aposta,
tentamos a canção, mas desafina;
rezamos a oração, mas descombina,
o beijo desvia e escorrega,
a palavra tropeça e foge à regra,
eu escolho o sol - você, a bruma,
voltamos sempre ao lugar comum.
Eu desajeito, você desarruma.
Nós dois: motivo algum.


[Flora Figueiredo]

3.1.13

pequeno poema dos dons




aos que não conseguem 
meditar:
as saudades e os jasmins

aos que não conseguem
imantar:
os silêncios e os gerânios

aos que não conseguem
flertar:
os mistérios e as violetas

aos que não conseguem
perseverar:
as palavras e as angélicas

aos que não conseguem
acorrentar:
o infinito e as orquídeas

Entorpecer de AMOR


"tudo começa no teu amor
fomos embebidos no mais fino caldo dos nossos pomares,
enrolados em mel transparente de abelhas verdadeiras,
entre tantos aromas esfregados em nossas peles,
fomos entorpecidos pelo mazar suave das laranjeiras,
[...] me estenda a tua mão."
 




25.12.12


Vou amanhecer em Piracanga
pegar com as mãos o corpo da manhã
regar o rio
acender-me com o fogo sagrado

Anoitecer e SER



O tempo




O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo.


Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível.

O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores(..)

(Trecho de Lavoura Arcaica – Raduan Nassar)

21.12.12





A felicidade de gostar de tudo não é o melhor dos gostos. Louvo as línguas delicadas e os estômagos escrupulosos que aprenderam a dizer: Eu, sim e não [...]
O que o meu gosto deseja é o amarelo intenso e o vermelho quente [...]


Sinestesia



~~ borboletas me voam ~~

Do desejo


expandir meu corpo no corpo do outro
cuidando para não transbordar o vento


 tradução dos rostos



sem a ânsia dos que reduzem os corpos ao estreito
 das máscaras


Estou dentro. Bebo o desejo


20.12.12

Desmedida


    NÃO para meio termos  


sou avessa as bordas 

 arranco pedaços inteiros


deliro na profundidade

múltipla
tua saliva cura


in OU É TUDO OU NADA



Deixe-a




O dia seguinte,  revela que o amor SEGUINTE pode sim, ser o esperado 
Não haverá a ressaca da AUSÊNCIA. Só o desejo seguinte
Não me deseje. Não resisto ao PRAZER
Mantenha-se longe e mais distante estarei
Não mergulhe na minha embriaguez
Sou da ENTREGA e esse é o meu vício

19.12.12

do dialeto Manoelês



Bernardo virou árvore várias vezes. Ele tinha dor de árvore. Solidão de árvore seca. Tristeza de árvore sem pássaro. Bernardo passou de árvore a pássaro, de pássaro a rio, de rio a sol, de sol a gente. Vagou muitos anos sem identidade. Aliás, andarilho não tem identidade, pode de repente adquirir gosto de flor. Andarilho é plural sempre.

Ensaio sobre a origem vermelha da rosa



Estava escrito que eu temeria tuas mãos
O florescimento da tua boca

A suntuosidade dos teus lábios
Tuas raízes atravessando-me o peito
O fogo e a ternura da tua carne
Estava escrito que eu morreria
Muitas mortes em teu cortejo de língua

[Assis Freitas]

Caetano Veloso Cucurrucucu Paloma Hable Con Ella

18.12.12


Aqui meu irmão ela é coisa rara de ver 

E jóia do Xá retina de um mar 

De olhar verde já derramante 

Abriu-se Sézamo em mim 

Ah! meu irmão aqualouca tara que tem ímã 

Mergulha no ar me arrasta me atrai 

Pro fundo do oceano que dá 

Prá lá de babá prá cá de ali 

Pedra que lasca seu brilho 

E que queima no lábio um quilate de mel 

E que deixa na boca melante 

Um gosto de língua no céu 

Luz talismã misterioso cubanacã 

Delícia sensual de maçã 

Saborosa manhã 

Vou te eleger vou me despejar de prazer 

Essa noite o que mais quero é ser 

Mil e um pra você