30.4.14

Matamoros, de Hilda Hilst (direção de Bel Garcia)

Fluxo-Floema

"Eu sei que é difícil no começo mas com o tempo você vai assimilar tudo isso, é preciso que você viva primeiro, que os anos passem, QUE OS ANOS PASSEM LENTAMENTE é preciso que se forme um certo limo sobre o corpo, é preciso sangrar as mãos, o ventre, o sexo, os pés, o plexo, a mente, e depois vem esse limo sobre a carne, delicado a princípio, apenas, uma matéria transparente, depois mais espessa... e quando chegar nesse ponto fique quieta, não se exponha demasiado porque qualquer golpe, um esbarrão até, pode fazer sangrar essa matéria. Depois, aos poucos, formar-se-á (olha a mesóclise) um invólucro quase duro, e aí você está pronta, aí já se esqueceram completamente de você, aí já não te golpearão mais".

(Hilda Hilst)

22.4.14

“Senhor, isso vai ser péssimo. Você vai querer dormir comigo todos os dias criados por Deus, e estou te avisando, comigo isso não dura...

[Hilda Hilst]
"Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade"

trecho de O Hospício É Deus (1965), de Maura Lopes Cançado.
no passado vejo o CIRCO
ilusionistas, trapezistas,
Ah! o palhaço
e aquele divino nada

20.3.14

Em minha fronte me perco numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas. 
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua fluis e não te moves. 

Octávio Paz

17.3.14

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia,
Eu não tenho nada
Antes de você ser eu sou
Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés

Brandy

Não estou a lhe pedir amor ou glória. É brandy e, repare, brandy de terceira categoria. Não é amor mesmo de terceira categoria. Nem a glória de terceira categoria, coisa suficiente para nos sentirmos muito perto de Deus.

Herberto Helder

14.3.14

a lua esconde-se no

a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce.

encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,

Recita
sobre a sua
carne
as pérolas

da chuva uma a uma murmurando.

e.e. cummings

28.2.14

desenho sorrisos

de papel
no espelho
da tua rotina

O Aprendiz



Sou pobre realmente.
Tenho apenas algumas folhas de papel na alma
E uma vontade — digamos, mansa —
De hipnotizar borboletas.
Oue coisa sei da vida?
Pouca coisa sei da vida.
O bastante para não correr.

Affonso Manta

A.

Antes de sair escute a última canção
esquece as carícias e o nosso silêncio salgado
pendurei as fotos no varal


F.

21.2.14

E sobretudo olhar com inocência. 
Como se nada se passasse, o que é certo.

[Alejandra Pizarnik]

20.2.14

Vertigens

E peço ao vento. Traz do espaço a luz inocente das urzes, 
um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina,
 uma lua vermelha