19.12.12

do dialeto Manoelês



Bernardo virou árvore várias vezes. Ele tinha dor de árvore. Solidão de árvore seca. Tristeza de árvore sem pássaro. Bernardo passou de árvore a pássaro, de pássaro a rio, de rio a sol, de sol a gente. Vagou muitos anos sem identidade. Aliás, andarilho não tem identidade, pode de repente adquirir gosto de flor. Andarilho é plural sempre.

Ensaio sobre a origem vermelha da rosa



Estava escrito que eu temeria tuas mãos
O florescimento da tua boca

A suntuosidade dos teus lábios
Tuas raízes atravessando-me o peito
O fogo e a ternura da tua carne
Estava escrito que eu morreria
Muitas mortes em teu cortejo de língua

[Assis Freitas]

Caetano Veloso Cucurrucucu Paloma Hable Con Ella

18.12.12


Aqui meu irmão ela é coisa rara de ver 

E jóia do Xá retina de um mar 

De olhar verde já derramante 

Abriu-se Sézamo em mim 

Ah! meu irmão aqualouca tara que tem ímã 

Mergulha no ar me arrasta me atrai 

Pro fundo do oceano que dá 

Prá lá de babá prá cá de ali 

Pedra que lasca seu brilho 

E que queima no lábio um quilate de mel 

E que deixa na boca melante 

Um gosto de língua no céu 

Luz talismã misterioso cubanacã 

Delícia sensual de maçã 

Saborosa manhã 

Vou te eleger vou me despejar de prazer 

Essa noite o que mais quero é ser 

Mil e um pra você


Incêncio alucinado


Tua fome obscena seja também revitalizada; um milagre, um milagre, eu ainda suplicava [...] subiremos escarpas de pés descalços e, de mãos dadas, iremos juntos incendiar o mundo!


17.12.12

Crepúsculo



Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes 
Borboletas de sol, de asas magoadas, 
Pousam nos meus, suaves e cansadas 
Como em dois lírios roxos e dolentes… 


E os lírios fecham… Meu amor não sentes? 
Minha boca tem rosas desmaiadas, 
E as minhas pobres mãos são maceradas 
Como vagas saudades de doentes… 



O silêncio abre as mãos… entorna rosas… 
Andam no ar carícias vaporosas 
Como pálidas sedas, arrastando… 



E a tua boca rubra ao pé da minha 
É na suavidade da tardinha. 
Um coração ardente palpitando…


mas não se questiona na aresta de um instante o destino dos nossos passos,
 bastava que eu soubesse que o instante que passa, passa definitivamente [...]

Gotan Project - Vuelvo Al Sur





Dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e rosada 
como a proa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde no branco
ou no preto devo jogar
jogando-me contigo
bem-me-quer
malmequer
ou muito ou pouco
ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito



16.12.12



Daqui desse momento

Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

14.12.12

13.12.12



Escreve no meu  corpo o teu silêncio

Apenas

o teu silêncio 


"O nó na minha garganta vai diminuindo. Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se umas por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam uma nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam, multiplicam-se. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele"

Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.



Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.


( Do Desejo )